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Os óculos de Weldson

julho 19, 2011

Weldson era o mais velho dos quatro filhos de Dona Célia. E era também o mais chato.
Weldson era obcecado pelo desejo quase imoral de melhorar de vida, ter fama, dinheiro e ser notado.  Weldson se irritava com muito pouco. O simples bater dos talheres nos pratos Duralex durante as refeições o descompensava a ponto de tremer de ira durante o jantar e bradar o quanto era insatisfeito. “Não mereço essa vidinha chinfrim! Quero coisa melhor para mim!” – exclamava na frente de toda a família ainda sentada à mesa, segurando o garfo com raiva, não se importando com a humilhação que causava principalmente à sua mãe, responsável por alimentar a família e pagar pelos caprichos de Weldson, que aos 19 anos ainda estava no primeiro ano do ensino médio e não nem pensava em ingressar na vida laboral.
A mãe, Dona Célia, trabalhava em uma repartição pública como secretária. Era mãe solteira e sentia orgulho em dizer que não precisava repetir as roupas de trabalho em um período de três meses. Weldson, no entanto, se sentia extremamente incomodado com o duvidoso gosto da mãe para se vestir. Quando decidia reprovar a mãe verbalmente e não só com o olhar, como costumeiramente fazia, Weldson não poupava comentários depreciativos: “Está parecendo um pavão gordo!”, “Está disfarçada de elefante em desfile de Marajá indiano?”, “Sobrou tecido no circo?”. Dona Célia ficava magoada, tentava entender a amargura do filho e se censurava toda vez que um pensamento que não fosse de amor invadia seu coração ao ouvir a voz do primogênito.
A diferença de 7 anos entre ele e o segundo irmão, Marilúcio, irritava Weldson; ele culpava a mãe de ser tão gorda que por 7 anos não teve a capacidade de manter um marido e dar-lhe um irmão que seria seu companheiro durante a infância para diminuir sua solidão. O fato da irmã, Josilélia Amandinny, ser extremamente feia também o irritava. Sentia vergonha de ter que sair com ela. Às vezes, seu desprezo pela mal-parecida irmã chegava ao ponto de fazê-lo aclarar que ela sofria de uma doença terrível e deformante com a finalidade de buscar compaixão de estranhos na rua.
Acima de tudo, Weldson se irritava com o caçula, simplesmente por ter sido poupado de ter um nome exótico e se chamar Paulo.
Weldson tinha muita vontade de estar sempre na moda e ser bem vestido. Ao passear um dia na frente de uma loja de marca, Weldson fixou os olhos em um par de óculos escuros e não pensou duas vezes: “é necessário obter este artefato”!
Buscar uma maneira de consegui-lo através dos incessantes apelos à mãe não surtiu efeito. Dona Célia não mostrava remorso algum em dizer não a mais este capricho do filho.
Weldson gritou, fez um pequeno escândalo em casa na frente dos irmãos mais novos, chamou atenção até dos vizinhos.  Achava que era obrigação da mãe fornecer-lhe acessórios bonitos, já que era estudante e não tinha renda. “Aquela gorda devia estar com tanta fome que, além do senso de moda, também comeu a compaixão!” – dramatizava para si mesmo.
Ainda se contendo para não falar nada que pudesse magoar o filho, Dona Célia arranjou com o patrão uma possibilidade de empregar o rapaz como office-boy na repartição onde trabalhava. Com grande taleto para as artes da interpretação, ela explicou como era atribulado o seu dia-a-dia com uma performance que seria memorável para o patrão por vários anos. Dona Célia falou da dificuldade de ser mãe solteira de quatro filhos em idade escolar. Para auxiliar na dramatização, pouco antes da conversa, guardou as bijuterias na gaveta da escrivaninha porque achava que elas a deixariam com “cara de rica”.
Dona Célia era muito querida no local de trabalho. Tinha problemas somente com a faxineira, que a conhecia há vários anos. Foram amigas, tomavam cerveja juntas no pagodão e pegavam o mesmo ônibus para o trabalho, mas hoje em dia, a faxineira não hesitava em dizer que “Celinha” era uma dissimulada, uma falsa e que sabe que um dia terá a chance de limpar todo o escritório usando o rosto murcho de Dona Célia.
O problema envolve Josilélia Amandinny. Ao que parece, a faxineira manteve por vários meses um relacionamento que poderia ser descrito como caótico com um servente de pedreiro. Um dia, o rapaz decidiu que o relacionamento não daria mais certo e resolveu seguir seu próprio caminho. Aparentemente, este caminho passava pela casa de Dona Célia que  após 8 meses concebeu a filha prematuramente. Dona Célia conseguiu que a menina fosse registrada com o nome do rapaz antes que ele desaparecesse no mundo. Dona Célia se enchia de orgulho em dizer que todos os filhos tinham pai. Cada um, um pai diferente, mas isso não importava. A faxineira jamais se convenceu de que o affair havia começado somente depois que seu ex-companheiro deixou o barraco que dividiam, por isso não se esforçava em esconder seus sentimentos de rancor e ódio em relação à querida Dona Célia.


A contragosto, Weldson aceitou trabalhar durante o período de férias no escritório da mãe. Seu gênio forte fez que suas respostas grosseiras à mãe fossem rechaçadas com veemência por todos. Ele aprendeu da maneira mais difícil a valorizar o trabalho da mãe, através da humilhação e da imposição do respeito.

No começo, Weldson pensava que o pior era ter que acompanhar a mãe no ônibus até a empresa. “Que vergonha que me vejam entrando no ônibus com esse hipopótamo colorido!”. Com o tempo, sua percepção mudou.
Durante os três meses de férias escolares, Weldson aprendeu a importância do trabalho e a respeitar o esforço árduo diário da mãe. Após diversas lições que Weldson aprendera à força – e que não serão descritas aqui porque não convém -, passou a defender a mãe dos ataques covardes de Marilúcio, que começava a tornar-se um adolescente tão chato quanto ele próprio havia sido.
Ao final do estágio como office boy, conseguiu o montante necessário para comprar seus desejados óculos escuros. Weldson se sentia orgulhoso de ter se tornado um ser humano melhor, mas a vergonha de perceber como era seu modo de agir com a mãe e perceber o quanto era imaturo antes desta experiência o devastava a ponto de impedi-lo de retornar à firma para sua festinha de despedida na sala de reuniões, regada a coxinha e refrigerante.
Na verdade, pouca gente se deu conta de que Weldson não havia ido à própria despedida.
Assim que recebeu o pagamento, Weldson pegou o ônibus para o shopping para comprar os óculos. Entrou correndo na loja, sorriu para a primeira atendente que ousou fazer contato visual com ele e com júbilo, disse:
– Vou comprar aquele ali!

– Este?

– Não. O outro! Com o detalhe! – dizia, mal segurando o transborde de felicidade.

– Ok. E o senhor quer algum ajuste? – disse a vendedora.
– Sim! Coloque a inicial W nas hastes! – era seu primeiro par de óculos de marca, ele queria algo especial.
– O senhor sabe que após este ajuste o produto não poderá ser trocado, não é?
Weldson ouviu, mas fingiu que não. Estava feliz demais para sequer conceber trocar os óculos.
– Pode embrulhar para presente? – disse ele, permitindo-se o pequeno capricho de dar-se este regalo. “Merecido”, pensava.

Ao chegar em casa, Weldson abriu o presente na frente dos irmãos e da mãe, ainda em euforia. Colocou os óculos no rosto devagar, observando cada detalhe, como quem obedece um ritual. Era a sua coroação: um novo Weldson, mais maduro, mais paciente, menos chato e agora, de óculos. Voltou-se à mãe, hoje sua cúmplice e disse fazendo uma pose que em nada combinava com o porte físico franzino: “Estou lindo!”.

Marilúcio, com toda inocência possível, disse: “Irmão, muito bacana seus óculos! Olha aqui na revista, estão usando um igualzinho!”
A euforia e excitação desapareceram instantaneamente. Weldson se deu conta de que óculos de fato eram usados por celebridades. Celebridades femininas. E Weldson não poderia trocar mais os óculos pelo capricho em gravar sua inicial nas hastes.

Weldson tremeu de ira. Levantou o punho fechado, balbuciou algum palavrão incompreensivelmente. Olhou para a mãe, para Marilúcio, Josilélia e Paulinho. Olhou seu reflexo nos óculos e, ainda tremendo e ofegante, chorou.
Dona Célia, no entanto evitou transparecer qualquer emoção. Segurou o sorriso. Sabia que acabara de ganhar um par novo de óculos. E de celebridade!

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4 Comentários
  1. William permalink

    Parabéns! Adoro os seus contos carregados de informação dentro de uma tematica simples. Abração e continue escrevendo!

  2. Carolina Rocha permalink

    Esse conto é agridoce, engraçado e ao mesmo tempo com uma nota de drama! Acho ótimo!

    • Adoro esses contos que não têm finais muito felizes mas que mesmo assim valem a pena ser lidos! É o que eu tento fazer! rs

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