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Misael, a mosca de Moscou

julho 5, 2011

Misael era uma mosca. Vivia em Moscou. “Ser uma mosca e viver em uma cidade com este nome é como habitar uma piada” – dizia ele. Uma piada de seu pai, nascido no Sul do Pará, mas cujo sonho era morrer nesta cidade de nome tão sonoro.
“Aquele louco”, dizia com um misto de saudade e vergonha ao se lembrar do pai.
O pai de Misael teve muita sorte. Por pouco não conseguiu imigrar. Ele e seu irmão, tio de Misael, tiveram que passar por diversos obstáculos para sair do interior quente e úmido da Selva Amazônica. O tio de Misael não pôde completar a jornada. Dizem que ainda está em estado catatônico causado pelo ar-condicionado do avião transatlântico e seu corpo está acometido de um torpor que o impede de acordar, fadado a um estado narcoléptico infindável. Cogita-se que ele assim permanecerá por todo o sempre, sem nunca deixar o avião, dada a conhecida incompetência das faxineiras da Aeroflot.

Sentado no batente da janela, abraçando as perninhas com os dois pares de membros superiores e apoiando seu queixo sobre os diminutos joelhos, Misael observava o entardecer. Os raios vermelhos do crepúsculo avançavam sobre todas as coisas, colorindo-as de um tom quente que simultaneamente atiçava e cegava. Aquela paisagem monocrômica ocupava os sentidos. As folhas do outono, já rubras, ganhavam um tom forte. O céu, normalmente acinzentado, mostrava uma matiz viva, pulsante, fazendo com que as nuvens tomassem formas orgânicas, quase obscenas.  Misael não podia evitar, diversos pensamentos passavam por sua mente com a mesma velocidade em que o rio Ganges devasta Bangladesh no mês de outubro.

No auge de seus 20 dias de vida, Misael me mostrava ciente de que não lhe faltava muito para dar o último zumbido indesejável na orelha, para fazer seu último pouso sobre a bosta quente. Misael tentava fechar suas 800 facetas oculares – que lhe faziam as vezes de olhos – e tentava não refletir sobre os possíveis dez ou onze dias que ainda lhe restariam.

“O que fiz de minha vida? Nunca plantei uma árvore, escrevi um livro ou tive um milhar de filhos. Jamais tive meus 15 minutos de fama e nunca me entreguei sem comedimentos.” Parafraseando Jorge Luis Borges – que na verdade plagiou Nadine Strain -, pensou: “Se eu pudesse viver minha vida novamente!” mas ao mesmo tempo se deteve: “Que loucura! Tolice ser uma larva nos dias de hoje! Meus tempos foram outros; é uma loucura trazer uma criança à vida neste mundo sem controle!”. Misael fechava suas facetas oculares e se desligava do momento presente.

Misael permaneceu tempo demais refletindo sobre o fato de que em pouco tempo, finalizaria seu 20º dia de vida. Sua sua alegria por ter sobrevivido a mais um dia de vida dava lugar à tristeza e à resignação de saber que o fim estava próximo.

Este sentimento, no entanto, foi suplantado pelo horror assim que Misael se deu conta de que já havia escurecido e que as terríveis luzes da noite estavam acesas, inclusive a tão temida “Голубой свет” (Goluboy svet), a “Luz Azul”…Seu pai lhe avisara para jamais olhá-la diretamente, jamais encará-la. Segundo seu pai, a luz atraía uma mosca como o canto das Nereidas atraem marinheiros gregos para um fim trágico.

Misael foi tomado pelo desespero. De repente, tudo o que ansiara, tudo o que houvera experimentado não valeria de nada pois sua morte era palpável. Misael tentava se esconder, voar às cegas para um abrigo e não ser atraído pela hipnotizante luz, mas uma faceta, aquela que sempre lhe dera problemas por ser “desobediente”, se recusava a ser fechada completamente! Era sua faceta teimosa, pouco confiável. Sua faceta “taurina” – brincava.
Ele comparara sempre esta faceta teimosa a um fio de cabelo que nunca fica no lugar por mais que se penteie, a uma mácula no espelho do banheiro que não some por mais que se limpe. Esta faceta teimosa o incomodava, pois através dela, era possível ainda ver o mundo ao redor, ainda que todas as outras 799 facetas estivessem fechadas. Misael pedia para si mesmo para que ela não enxergasse um foco de luz, pois isso seria uma morte certa.

Em um determinado momento, quando já julgava estar em segurança, Misael foi pego de supetão por um pequeno feixe de luz, justamente por sua faceta teimosa e traiçoeira.
Não havia mais o que fazer, a mosca percebe o feixe de luz celeste. Misael sabe que não poderia permitir que isso acontecesse, tenta arduamente não ceder, mas outras facetas involuntariamente se abrem…Misael é então tomado pela brilhante e fúnebre fonte emissora da luz azul. Ele se sente ao mesmo tempo envolto pela luz que o conforta e pelo terror da morte. Misael lamenta por ter ser entregado, promete a si mesmo lutar contra o fim, promete viver os próximos 10 dias sem um só momento de tristeza e comedimento!
Tudo em vão.

Seu corpo corpo é atraído pela luz, mas sua mente ainda refutava a ideia de se entregar. Mas por mais que lutasse, seus incontáveis olhos não conseguiam deixar de admirar aquela que lhe traria o fim.
Misael sabia o que “Эсминец мух 3000-K” (Esminets mukh) queria dizer: “o destruidor de moscas 3000-K”, mas sentia-se atraído assim como um navegante do Mar Jônio que vê uma bela ninfa do mar, vestida somente com pérolas entrelaçadas em seus cabelos castanhos e um sorriso convidativo. Misael não mais hesitou, foi ao abraço de sua musa, mesmo sabendo que o abraço seria eterno.
Chegou a se lamentar: “É meu fim, estou morto. Aprisionado por  minha atração inexplicável por esta fonte luminosa, traído por minha faceta. Não posso mais lutar contra a força inconcebível que este mortal raio tem sobre mim”.

Não obstante, o sentimento de resignação foi arrebatado por uma sensação de alegria, de recompensa, de vida! Talvez pela frustração, talvez por aceitar que não poderá mais mudar seu destino, Misael abriu um sorriso e sentiu a luz penetrar cada membro de seu corpo. Aquele calor trazia felicidade, trazia o sentimento de plenitude, mostrava o quanto havia sido tolo se preocupando com questões terrenas. O fim havia chegado, e ele era lindo.

Em seu abraço eterno com a luz azul, cerrou de vez as facetas.

Em homenagem àquele sentimento indescritível de entrega sem medo, de amor sem restrições, Misael estava certo que uma nova constelação surgiria nos céus de Moscou; pois assim todos entenderiam a beleza daquele momento, saberiam da mágica que houvera experimentado, da euforia, daquela sensação envolvente de não se ter culpa, julgamentos, preocupações ou restrições. “Que momento sublime!” – jubilava.

Não, a tal constelação não surgiu. Ironicamente, a morte de Misael foi o ápice de sua vida. Não significou nada para ninguém.

_____

Margarete era uma mosca. Vivia em Muscat. “Ser uma mosca e viver em uma cidade com este nome é como habitar uma piada” – dizia ela. Uma piada de sua mãe, nascida no Oeste de Santa Catarina, mas cujo sonho era morrer nesta cidade de nome tão sonoro.

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4 Comentários
  1. Carolina Rocha permalink

    Se imaginar como um inseto e voar para longe é uma sensação libertadora. Mas mais libertador ainda é poder encontrar a luz que Misael acessou. Adoro a animalização da vida. Clarice Lispector, por exemplo, se enxergava mais como bicho do que como gente. Ser bicho é melhor. Se age por instintos e as perguntas não existem. Não há dúvidas nem culpa. Eu gostaria muito de voltar a ser bicho um dia.

    • Carol, seu comentário tem tudo a ver! Achei interessante colocar uma consciência humana no animal e adaptar para a realidade dele. São tantas as possibilidades!

  2. Tamara Socolik permalink

    Sabe que nunca fiz essa associação, de mosca com Moscou? Coisa de mentes privilegiadas… 🙂

    • Até parece, Tamara! Vai dizer que você, por exemplo, nunca associou Kuala Lumpur à Austrália? Kuala, coala…

      Criatividade mesmo é associar uma coisa bacana ao nome Bruxelas!

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