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Os óculos de Weldson

Weldson era o mais velho dos quatro filhos de Dona Célia. E era também o mais chato.
Weldson era obcecado pelo desejo quase imoral de melhorar de vida, ter fama, dinheiro e ser notado.  Weldson se irritava com muito pouco. O simples bater dos talheres nos pratos Duralex durante as refeições o descompensava a ponto de tremer de ira durante o jantar e bradar o quanto era insatisfeito. “Não mereço essa vidinha chinfrim! Quero coisa melhor para mim!” – exclamava na frente de toda a família ainda sentada à mesa, segurando o garfo com raiva, não se importando com a humilhação que causava principalmente à sua mãe, responsável por alimentar a família e pagar pelos caprichos de Weldson, que aos 19 anos ainda estava no primeiro ano do ensino médio e não nem pensava em ingressar na vida laboral.
A mãe, Dona Célia, trabalhava em uma repartição pública como secretária. Era mãe solteira e sentia orgulho em dizer que não precisava repetir as roupas de trabalho em um período de três meses. Weldson, no entanto, se sentia extremamente incomodado com o duvidoso gosto da mãe para se vestir. Quando decidia reprovar a mãe verbalmente e não só com o olhar, como costumeiramente fazia, Weldson não poupava comentários depreciativos: “Está parecendo um pavão gordo!”, “Está disfarçada de elefante em desfile de Marajá indiano?”, “Sobrou tecido no circo?”. Dona Célia ficava magoada, tentava entender a amargura do filho e se censurava toda vez que um pensamento que não fosse de amor invadia seu coração ao ouvir a voz do primogênito.
A diferença de 7 anos entre ele e o segundo irmão, Marilúcio, irritava Weldson; ele culpava a mãe de ser tão gorda que por 7 anos não teve a capacidade de manter um marido e dar-lhe um irmão que seria seu companheiro durante a infância para diminuir sua solidão. O fato da irmã, Josilélia Amandinny, ser extremamente feia também o irritava. Sentia vergonha de ter que sair com ela. Às vezes, seu desprezo pela mal-parecida irmã chegava ao ponto de fazê-lo aclarar que ela sofria de uma doença terrível e deformante com a finalidade de buscar compaixão de estranhos na rua.
Acima de tudo, Weldson se irritava com o caçula, simplesmente por ter sido poupado de ter um nome exótico e se chamar Paulo.
Weldson tinha muita vontade de estar sempre na moda e ser bem vestido. Ao passear um dia na frente de uma loja de marca, Weldson fixou os olhos em um par de óculos escuros e não pensou duas vezes: “é necessário obter este artefato”!
Buscar uma maneira de consegui-lo através dos incessantes apelos à mãe não surtiu efeito. Dona Célia não mostrava remorso algum em dizer não a mais este capricho do filho.
Weldson gritou, fez um pequeno escândalo em casa na frente dos irmãos mais novos, chamou atenção até dos vizinhos.  Achava que era obrigação da mãe fornecer-lhe acessórios bonitos, já que era estudante e não tinha renda. “Aquela gorda devia estar com tanta fome que, além do senso de moda, também comeu a compaixão!” – dramatizava para si mesmo.
Ainda se contendo para não falar nada que pudesse magoar o filho, Dona Célia arranjou com o patrão uma possibilidade de empregar o rapaz como office-boy na repartição onde trabalhava. Com grande taleto para as artes da interpretação, ela explicou como era atribulado o seu dia-a-dia com uma performance que seria memorável para o patrão por vários anos. Dona Célia falou da dificuldade de ser mãe solteira de quatro filhos em idade escolar. Para auxiliar na dramatização, pouco antes da conversa, guardou as bijuterias na gaveta da escrivaninha porque achava que elas a deixariam com “cara de rica”.
Dona Célia era muito querida no local de trabalho. Tinha problemas somente com a faxineira, que a conhecia há vários anos. Foram amigas, tomavam cerveja juntas no pagodão e pegavam o mesmo ônibus para o trabalho, mas hoje em dia, a faxineira não hesitava em dizer que “Celinha” era uma dissimulada, uma falsa e que sabe que um dia terá a chance de limpar todo o escritório usando o rosto murcho de Dona Célia.
O problema envolve Josilélia Amandinny. Ao que parece, a faxineira manteve por vários meses um relacionamento que poderia ser descrito como caótico com um servente de pedreiro. Um dia, o rapaz decidiu que o relacionamento não daria mais certo e resolveu seguir seu próprio caminho. Aparentemente, este caminho passava pela casa de Dona Célia que  após 8 meses concebeu a filha prematuramente. Dona Célia conseguiu que a menina fosse registrada com o nome do rapaz antes que ele desaparecesse no mundo. Dona Célia se enchia de orgulho em dizer que todos os filhos tinham pai. Cada um, um pai diferente, mas isso não importava. A faxineira jamais se convenceu de que o affair havia começado somente depois que seu ex-companheiro deixou o barraco que dividiam, por isso não se esforçava em esconder seus sentimentos de rancor e ódio em relação à querida Dona Célia.


A contragosto, Weldson aceitou trabalhar durante o período de férias no escritório da mãe. Seu gênio forte fez que suas respostas grosseiras à mãe fossem rechaçadas com veemência por todos. Ele aprendeu da maneira mais difícil a valorizar o trabalho da mãe, através da humilhação e da imposição do respeito.

No começo, Weldson pensava que o pior era ter que acompanhar a mãe no ônibus até a empresa. “Que vergonha que me vejam entrando no ônibus com esse hipopótamo colorido!”. Com o tempo, sua percepção mudou.
Durante os três meses de férias escolares, Weldson aprendeu a importância do trabalho e a respeitar o esforço árduo diário da mãe. Após diversas lições que Weldson aprendera à força – e que não serão descritas aqui porque não convém -, passou a defender a mãe dos ataques covardes de Marilúcio, que começava a tornar-se um adolescente tão chato quanto ele próprio havia sido.
Ao final do estágio como office boy, conseguiu o montante necessário para comprar seus desejados óculos escuros. Weldson se sentia orgulhoso de ter se tornado um ser humano melhor, mas a vergonha de perceber como era seu modo de agir com a mãe e perceber o quanto era imaturo antes desta experiência o devastava a ponto de impedi-lo de retornar à firma para sua festinha de despedida na sala de reuniões, regada a coxinha e refrigerante.
Na verdade, pouca gente se deu conta de que Weldson não havia ido à própria despedida.
Assim que recebeu o pagamento, Weldson pegou o ônibus para o shopping para comprar os óculos. Entrou correndo na loja, sorriu para a primeira atendente que ousou fazer contato visual com ele e com júbilo, disse:
– Vou comprar aquele ali!

– Este?

– Não. O outro! Com o detalhe! – dizia, mal segurando o transborde de felicidade.

– Ok. E o senhor quer algum ajuste? – disse a vendedora.
– Sim! Coloque a inicial W nas hastes! – era seu primeiro par de óculos de marca, ele queria algo especial.
– O senhor sabe que após este ajuste o produto não poderá ser trocado, não é?
Weldson ouviu, mas fingiu que não. Estava feliz demais para sequer conceber trocar os óculos.
– Pode embrulhar para presente? – disse ele, permitindo-se o pequeno capricho de dar-se este regalo. “Merecido”, pensava.

Ao chegar em casa, Weldson abriu o presente na frente dos irmãos e da mãe, ainda em euforia. Colocou os óculos no rosto devagar, observando cada detalhe, como quem obedece um ritual. Era a sua coroação: um novo Weldson, mais maduro, mais paciente, menos chato e agora, de óculos. Voltou-se à mãe, hoje sua cúmplice e disse fazendo uma pose que em nada combinava com o porte físico franzino: “Estou lindo!”.

Marilúcio, com toda inocência possível, disse: “Irmão, muito bacana seus óculos! Olha aqui na revista, estão usando um igualzinho!”
A euforia e excitação desapareceram instantaneamente. Weldson se deu conta de que óculos de fato eram usados por celebridades. Celebridades femininas. E Weldson não poderia trocar mais os óculos pelo capricho em gravar sua inicial nas hastes.

Weldson tremeu de ira. Levantou o punho fechado, balbuciou algum palavrão incompreensivelmente. Olhou para a mãe, para Marilúcio, Josilélia e Paulinho. Olhou seu reflexo nos óculos e, ainda tremendo e ofegante, chorou.
Dona Célia, no entanto evitou transparecer qualquer emoção. Segurou o sorriso. Sabia que acabara de ganhar um par novo de óculos. E de celebridade!

酒を飲み過ぎる後に夏の思想

夏の雲
わたがしのよう
甘いかな?

*

なつのくも
わたがしのよう
あまいかな?

*

As nuvens de verão
parecem algodão doce
será que são doces?

x

Die Wolke im Sommer
sieht so aus, Zuckerwatte zu sein
sind sie vielleicht süß?

お正月の思い出す

お初日や
貴方の笑顔
と新雪

x

おはつひや
あなたのえがお
としんせつ

x

No amanhecer do Ano Novo
o teu sorriso
e a neve recém-caída

x

Beim Sonnenaufgang des Neujahres
dein Lächeln
und die Neuschnee

Misael, a mosca de Moscou

Misael era uma mosca. Vivia em Moscou. “Ser uma mosca e viver em uma cidade com este nome é como habitar uma piada” – dizia ele. Uma piada de seu pai, nascido no Sul do Pará, mas cujo sonho era morrer nesta cidade de nome tão sonoro.
“Aquele louco”, dizia com um misto de saudade e vergonha ao se lembrar do pai.
O pai de Misael teve muita sorte. Por pouco não conseguiu imigrar. Ele e seu irmão, tio de Misael, tiveram que passar por diversos obstáculos para sair do interior quente e úmido da Selva Amazônica. O tio de Misael não pôde completar a jornada. Dizem que ainda está em estado catatônico causado pelo ar-condicionado do avião transatlântico e seu corpo está acometido de um torpor que o impede de acordar, fadado a um estado narcoléptico infindável. Cogita-se que ele assim permanecerá por todo o sempre, sem nunca deixar o avião, dada a conhecida incompetência das faxineiras da Aeroflot.

Sentado no batente da janela, abraçando as perninhas com os dois pares de membros superiores e apoiando seu queixo sobre os diminutos joelhos, Misael observava o entardecer. Os raios vermelhos do crepúsculo avançavam sobre todas as coisas, colorindo-as de um tom quente que simultaneamente atiçava e cegava. Aquela paisagem monocrômica ocupava os sentidos. As folhas do outono, já rubras, ganhavam um tom forte. O céu, normalmente acinzentado, mostrava uma matiz viva, pulsante, fazendo com que as nuvens tomassem formas orgânicas, quase obscenas.  Misael não podia evitar, diversos pensamentos passavam por sua mente com a mesma velocidade em que o rio Ganges devasta Bangladesh no mês de outubro.

No auge de seus 20 dias de vida, Misael me mostrava ciente de que não lhe faltava muito para dar o último zumbido indesejável na orelha, para fazer seu último pouso sobre a bosta quente. Misael tentava fechar suas 800 facetas oculares – que lhe faziam as vezes de olhos – e tentava não refletir sobre os possíveis dez ou onze dias que ainda lhe restariam.

“O que fiz de minha vida? Nunca plantei uma árvore, escrevi um livro ou tive um milhar de filhos. Jamais tive meus 15 minutos de fama e nunca me entreguei sem comedimentos.” Parafraseando Jorge Luis Borges – que na verdade plagiou Nadine Strain -, pensou: “Se eu pudesse viver minha vida novamente!” mas ao mesmo tempo se deteve: “Que loucura! Tolice ser uma larva nos dias de hoje! Meus tempos foram outros; é uma loucura trazer uma criança à vida neste mundo sem controle!”. Misael fechava suas facetas oculares e se desligava do momento presente.

Misael permaneceu tempo demais refletindo sobre o fato de que em pouco tempo, finalizaria seu 20º dia de vida. Sua sua alegria por ter sobrevivido a mais um dia de vida dava lugar à tristeza e à resignação de saber que o fim estava próximo.

Este sentimento, no entanto, foi suplantado pelo horror assim que Misael se deu conta de que já havia escurecido e que as terríveis luzes da noite estavam acesas, inclusive a tão temida “Голубой свет” (Goluboy svet), a “Luz Azul”…Seu pai lhe avisara para jamais olhá-la diretamente, jamais encará-la. Segundo seu pai, a luz atraía uma mosca como o canto das Nereidas atraem marinheiros gregos para um fim trágico.

Misael foi tomado pelo desespero. De repente, tudo o que ansiara, tudo o que houvera experimentado não valeria de nada pois sua morte era palpável. Misael tentava se esconder, voar às cegas para um abrigo e não ser atraído pela hipnotizante luz, mas uma faceta, aquela que sempre lhe dera problemas por ser “desobediente”, se recusava a ser fechada completamente! Era sua faceta teimosa, pouco confiável. Sua faceta “taurina” – brincava.
Ele comparara sempre esta faceta teimosa a um fio de cabelo que nunca fica no lugar por mais que se penteie, a uma mácula no espelho do banheiro que não some por mais que se limpe. Esta faceta teimosa o incomodava, pois através dela, era possível ainda ver o mundo ao redor, ainda que todas as outras 799 facetas estivessem fechadas. Misael pedia para si mesmo para que ela não enxergasse um foco de luz, pois isso seria uma morte certa.

Em um determinado momento, quando já julgava estar em segurança, Misael foi pego de supetão por um pequeno feixe de luz, justamente por sua faceta teimosa e traiçoeira.
Não havia mais o que fazer, a mosca percebe o feixe de luz celeste. Misael sabe que não poderia permitir que isso acontecesse, tenta arduamente não ceder, mas outras facetas involuntariamente se abrem…Misael é então tomado pela brilhante e fúnebre fonte emissora da luz azul. Ele se sente ao mesmo tempo envolto pela luz que o conforta e pelo terror da morte. Misael lamenta por ter ser entregado, promete a si mesmo lutar contra o fim, promete viver os próximos 10 dias sem um só momento de tristeza e comedimento!
Tudo em vão.

Seu corpo corpo é atraído pela luz, mas sua mente ainda refutava a ideia de se entregar. Mas por mais que lutasse, seus incontáveis olhos não conseguiam deixar de admirar aquela que lhe traria o fim.
Misael sabia o que “Эсминец мух 3000-K” (Esminets mukh) queria dizer: “o destruidor de moscas 3000-K”, mas sentia-se atraído assim como um navegante do Mar Jônio que vê uma bela ninfa do mar, vestida somente com pérolas entrelaçadas em seus cabelos castanhos e um sorriso convidativo. Misael não mais hesitou, foi ao abraço de sua musa, mesmo sabendo que o abraço seria eterno.
Chegou a se lamentar: “É meu fim, estou morto. Aprisionado por  minha atração inexplicável por esta fonte luminosa, traído por minha faceta. Não posso mais lutar contra a força inconcebível que este mortal raio tem sobre mim”.

Não obstante, o sentimento de resignação foi arrebatado por uma sensação de alegria, de recompensa, de vida! Talvez pela frustração, talvez por aceitar que não poderá mais mudar seu destino, Misael abriu um sorriso e sentiu a luz penetrar cada membro de seu corpo. Aquele calor trazia felicidade, trazia o sentimento de plenitude, mostrava o quanto havia sido tolo se preocupando com questões terrenas. O fim havia chegado, e ele era lindo.

Em seu abraço eterno com a luz azul, cerrou de vez as facetas.

Em homenagem àquele sentimento indescritível de entrega sem medo, de amor sem restrições, Misael estava certo que uma nova constelação surgiria nos céus de Moscou; pois assim todos entenderiam a beleza daquele momento, saberiam da mágica que houvera experimentado, da euforia, daquela sensação envolvente de não se ter culpa, julgamentos, preocupações ou restrições. “Que momento sublime!” – jubilava.

Não, a tal constelação não surgiu. Ironicamente, a morte de Misael foi o ápice de sua vida. Não significou nada para ninguém.

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Margarete era uma mosca. Vivia em Muscat. “Ser uma mosca e viver em uma cidade com este nome é como habitar uma piada” – dizia ela. Uma piada de sua mãe, nascida no Oeste de Santa Catarina, mas cujo sonho era morrer nesta cidade de nome tão sonoro.